Os Amores Que Ouso Dizer Os Nomes

Esta semana surgiu algo deveras interessante na nossa costumeira roda de bate papo no Bar do Raul, também conhecida como curso de extensão rural regada a poesia, teorias sociológicas e cerveja.

Uma amiga sugeriu que as pessoas estariam comentando sobre a “amizade colorida” entre a minha pessoa e outro colega de curso. Motivo de piada no primeiro momento, a questão trouxe uma reflexão interessante: 

Até onde uma amizade verdadeiramente afetuosa entre duas pessoas do mesmo sexo implica em relação homossexual?

Para responder a esse questionamento, necessário se faz um resgate histórico.

Na Grécia Antiga à amizade entre homens mais que valorizada, era encorajada, e era perfeitamente normal a confraternização homossexual, diga-se de passagem, que naquela sociedade o conceito de homossexualidade nem se quer existia, e havia regras de comportamento social que regulamentavam tais relações. (O termo homossexual foi criado em 1869 pelo escritor e jornalista austro-húngaro Karl-Maria Kertbeny. Deriva do gr. homos, que significa "semelhante", "igual").

Já com o advento do Cristianismo e sua expansão, apesar do “Amai ao próximo como a ti mesmo”, trouxe consigo a herança hebraica da austeridade masculina e a condenação do sentimentalismo feminilizado por parte dos homens.

E avança com grande repressão após a Reforma Protestante. Mas na Índia, como há muito tempo, hoje em dia é perfeitamente normal que os homens andem de mãos dadas e que façam demonstrações públicas de afeto sem que isso implique em uma relação homossexual.

Pois bem senhores, o conceito de homossexualidade é uma construção cultural. (Alguns historiadores da ciência afirmam que a homossexualidade é uma invenção recente, um termo que busca nomear uma forma de amor e relacionamento que existe desde os primórdios da humanidade).

A natureza pode determinar como nascemos, mas não como vivemos. Quem tenta determinar isto de forma mais acentuada é a cultura, com seus parâmetros de comportamento e seus mecanismos de repressão aos “desajustados”.

Política e Religião, o casamento perfeito para controlar o corpo e a alma. Dessa forma, o estranhamento de certas pessoas a amizade afetuosa, a demonstração de carinho sincero entre eu e meus amigos, deve ser de certa forma constrangedora, remetendo-as de imediato a homossexualidade.

Nós, com nossos abraços calorosos, com nossos beijos na face um do outro, com nossas declarações de amor e amizade, devemos estar quebrando o censo comum de comportamento dos ditos machos da nossa sociedade.

Nós que não nos deixamos reprimir, que não nos vergonha-mos dos nossos sentimentos, que não nos furtamos da consciência de que é preciso nos amar como se não houvesse amanhã, porque o que realmente temos é o agora.

Então se por demonstrar-mos nossos sentimentos fraternais, de forma tão peculiar aos olhos alheios, nos faz ser-mos, segundo eles; homossexuais. Tenho a obrigação de dizer que estão enganados!

Não somos homossexuais, somos sim, bissexuais! Porque sentimos e demonstramos o mesmo carinho e afeto tanto pelos nossos amigos, quanto pelas nossas amigas. Nossa fraternidade é verdadeira. Nosso “bissexualismo sentimental”, é a quebra do arquétipo machista da nossa sociedade, em especial aqui no nordeste, onde a intolerância e a homofobia fazem tantas vítimas.

E é por isso, pelo medo do julgamento alheio, que tenho certeza que alguns dos nossos colegas de curso não têm coragem de assumir sua orientação sexual. Porque sabem que existe uma grande distância entre o discurso da tolerância e a prática do interacionismo social, entre a defesa das várias possibilidades de existência do indivíduo e a execração parâmetrada no arcabouço da ideologia patriarcal.

Parece que esses pretensos Bacharéis em Ciências Sociais, têm dificuldade em entender a dinâmica do comportamento social, da cultura, das transformações advindas da evolução da percepção do que é o outro.  Pois o outro não é mais o homem, a mulher, o velho ou a criança. O outro agora é o indivíduo e suas possibilidades, seus “eus” e a sua singularidade existencial.

É dessa forma que devem ser encaradas as novas relações sociais, as novas configurações de gênero e idade, que sinalizam a aurora das transformações do nosso mundo, da nossa realidade social, é mais uma aventura fora da caverna platônica das percepções.

Por isso não tenho motivos de envergonha-me dos meus sentimentos, e nem de temer os olhos que adjetivam minhas atitudes, pois se Oscar Wilde ao ser julgado por ser homossexual disse “O amor que não ouso dizer o nome”, eu digo “Os Amores que Ouso Dizer os Nomes”:

Então ai vão alguns dos meus amores: João Paiva (amo você meu querido irmão, és o melhor de nós, nosso Sir Percival, o mais puro de coração), André Paiva (você e seu irmão dividem no mesmo “tom” caráter e espírito, são pessoas excepcionais), Clodoaldo Cavalcanti (meu “dom” desde que nos conhecemos sempre estivemos lado a lado, grande poeta), Rodrigo Oliveira (o mais intelectual de todos nós, temos orgulho de você), Elias Gomes “Neguinho”, (o xangozeiro dialético está à frente de muita gente quando o assunto é interação social), Jarbas Santos (o mestre, nosso mestre, filósofo, poeta e bom vivan, compromissado com apenas três coisas; a filosofia, a arte e a poesia; devemos a você muito do que sabemos hoje).

Mônica Louise (a musa, você é linda em todos os aspectos, é uma unanimidade entre nós), Joana (agora meio ausente, ainda assim se faz presente nos nossos encontros etílicos), Bruno seu gordo safado! (Acredite: A Revolução Não Será Televisionada). Filipe Nires (nosso Denzel Washington, é um moleque de grande coração). Angélica, Sheyla e Marilia Gabriela (as panteras, chegaram devagarzinho e nos surpreenderam, são musas!). Thiago e César “o rasta” (É uma dupla cheia de charme e elegância).

Marcinho (você é uma espécie de gigante do bem, só tem tamanho, e conquista a todos com seu bom humor). Paula (uma mulher, uma vida, uma história... amo você). Gabriel e Patrícia, (um casal querido por todos, vocês nos completam). Eliana, Lidiane e “as Danis” (musas inspiradoras...). Glauce Medeiros “Margarida”, Hugo, Renata Santos, Tayga Pimentel, Mirela Borba e tantos outros e outras que fazem parte desse universo de percepções e sentimentos.

São todos meus amores, são a “minha bissexualidade sentimental”. O tema é ótimo, extenso e prazeroso, no entanto devo o dar por encerrado, pelo menos para mim, para tal, escolhi mais uma de Oscar Wilde, que desta vez é uma homenagem aos meus amigos:   

Loucos e Santos

Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.

Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.

Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.

Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.

Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos nem chatos.

Quero-os metade infância e outra metade velhice!

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.

Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril.

Oscar Wilde (Dublin, 16 de outubro de 1854 - Paris, 30 de novembro de 1900) foi um dramaturgo, escritor e poeta irlandês. Expoente da literatura inglesa durante o período vitoriano, sofreu enormes problemas por sua condição homossexual, sendo preso e humilhado perante a sociedade.

René Caetano 

Graduando do VII Período do curso de Bacharelado em Ciências Sociais da UFRPE.


Fonte: Article Marketing Brasil

René Caetano


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