O Design Na Televisão Brasileira

Resumo

Este texto é uma análise do discurso visual como elemento determinante nas vinhetas de abertura das telenovelas da TV Globo. As vinhetas de abertura das telenovelas são um sistema de linguagem que comunicam através de imagem e som. Este sistema compõe em seu repertório o imaginário cultural da coletividade utilizado como processo informativo e persuasivo. Pelo aspecto cultural e pelo poder de manipulação do inconsciente, as vinhetas resultam em sentido simbólico e ideológico. Os objetivos são buscar identificar o design e os efeitos que as vinhetas de abertura das telenovelas podem transmitir ao telespectador, compreendendo quais aspectos visuais estão contidos nesse complexo imagético e sonoro utilizado com destaque no Brasil pela TV Globo.

Surge a TV Globo

A televisão começa a evoluir a partir da revolução da tecnologia das telecomunicações. Na década de 60 presenciamos um grande avanço com o surgimento do videotape, viabilizando a gravação do conteúdo televisivo. Com o progresso aliado ao crescimento econômico, a televisão passa a disputar com outras mídias a distribuição de verbas de propaganda. A TV Globo, inaugurada em 1965, mantém um alto investimento em tecnologia e estratégia política, possibilitando o destaque da emissora em relação às suas concorrentes.

A imagem em cores em alta definição, a transmissão via satélite, o som estéreo, os recursos e técnicas de edição, a evolução das câmeras e o processo de informatização e modernos aparelhos receptores de sinais também viabilizaram a grande revolução da televisão. O destaque frente à concorrência permitiu à TV Globo grandes investimentos na produção de imagem e som de alta qualidade.

A partir dos anos 70, segundo Tremer e Monteiro (1997: 48), a TV Globo consagra-se como a maior emissora no país:

[...] obteve grandes números no IBOPE [...]. Passou a conquistar um número cada vez maior de afiliadas, tornando-se cada vez mais rentável, e investiu em melhorias técnicas consideráveis, elevando a televisão brasileira a um nível somente comparável a alguns poucos países do primeiro mundo.

A vinheta: sua origem, produção e significados

O repertório da televisão compreende uma grande variedade de assuntos e pela sua principal característica - que é a velocidade - são distribuídos em recortes muito rápidos. Através das chamadas, ela informa o telespectador de sua programação. Comunica as manchetes mais importantes e outras informações relevantes para a emissora. Com o objetivo de administrar esta quantidade de informação passa a utilizar o recurso chamado vinheta, uma forma de linguagem capaz de dar suporte e de organizar o material televisivo.

No entanto, podemos constatar que as vinhetas, além de suas funções operacionais, possuem outros objetivos, como o de consolidar estética e simbolicamente a imagem da emissora. Se entendermos a origem e o contexto histórico das vinhetas, suas formas de linguagem e a sua adaptação à linguagem televisiva, as funções das vinhetas da TV Globo tornam-se mais compreensíveis.

A vinheta originou-se na Idade Antiga através da oralidade na interpretação dos textos sagrados e na Idade Média tinha por função ornar as iluminuras por meio de desenhos e pinturas com valores simbólicos. Na Idade Moderna, com a revolução da imprensa, surge o termo vinheta - do francês vignette (folha da videira) -, o qual ganha função decorativa e passa a fazer parte da editoração gráfica. Na Idade Contemporânea, a vinheta foi adaptada para a televisão e outros meios de comunicação de massa como cinema, rádio e Internet; e também é utilizada na arquitetura, na pintura e no design (Aznar, 1997).

A televisão, na década de 50, utiliza a vinheta precariamente, haja visto a falta de recursos e tecnologia. À medida que o sistema se moderniza, lembrando da proximidade das artes gráficas contemporâneas com a imagem em vídeo, através da arte eletrônica e da computação gráfica, a vinheta também evolui (Aznar, 1997).

A partir de 1970, a TV Globo inicia o investimento em sofisticados recursos tecnológicos. Em 1975, com o avanço da tecnologia (computadores, engenharia de telecomunicações, televisão em cores, etc.), tem-se uma melhoria extraordinária na qualidade da sensação audiovisual.

Aliado aos computadores e ao design em movimento, surge a nova era das imagens sintéticas e com ilusão da tridimensionalidade. A TV Globo forma uma equipe especializada e inicia o investimento nas vinhetas em movimento, originalmente desenvolvidas à base de técnicas do cinema e, em seguida, por meio dos recursos do design e da computação gráfica, sob o comando do designer austríaco Hans Donner, que promove um novo conceito de vinheta aplicada à televisão. Esse processo, denominado videographics, consiste em um tipo de criação que envolve profissionais das mais diferentes áreas como: animadores, câmeras, cenógrafos, coreógrafos, designers, diretores, fotógrafos, diretores de fotografia, editores, figurinistas, ilustradores, maquetistas, maquiadores, músicos e produtores.

O processo de produção dos videographics envolve etapas como: a criação, a modelagem, a animação e a finalização. Primeiramente, uma vinheta é grafo pictórica e, em seguida, tecnológica. O storyboard (conjunto de imagens, normalmente ilustrações, que orientam a ação que terá a vinheta) é semelhante ao da produção das primeiras vinhetas animadas. A finalização executada no exterior, envolvia os mais sofisticados equipamentos da computação gráfica, os quais possibilitavam até a viabilização de imagens em movimento com ilusão tridimensional (Aznar, 1997: 51-58).

A vinheta na televisão tem várias funções e recebe denominação própria: vinheta de identidade, vinheta de chamada, vinheta de passagem e vinheta de abertura, sendo esta última o objeto de estudo deste artigo. A definição de vinheta na televisão pode ser: peça de curta metragem, constituída de algum tipo de signo ou representação, composta de elementos imagéticos, sonoros e mensagem de expressão verbal, usada com fim informativo, decorativo, ilustrativo, de remate, de chamada, de passagem, de identificaçã o institucional e de organização do espaço televisivo, etc.

As vinhetas aparecem nos espaços interprogramas e breaks e na abertura de programas como as telenovelas, projetos estes tão aguardados quanto às próprias telenovelas a que se destinam. Segundo Aznar (1997:44), “a vinheta tornou-se um apelo decorativo imagético e sonoro, que além de identificar a emissora de forma característica, ainda tem a função de auxiliá-la a vender os seus produtos. As imagens das vinhetas de abertura trazem consigo, sempre, um sistema de imagens com narrativa específica para tal programa, um signo de identificação, o logotipo e a música. São elaboradas pela arte dos videographics, hoje departamento da TV Globo que integra a Central Globo de Comunicação”.

A tecnologia assume função primordial na produção das vinhetas, pois estas são feitas a partir da fusão da arte do vídeo, produzida por câmeras (videoteipe) e do design, representada por desenhos, grafismos ou imagens. Machado (1997: 158) informa que “a evolução da imagem analógica para uma linguagem digital pode ser definida como a transformação de uma televisão predominantemente figurativa em uma televisão predominantemente gráfica”. O tratamento digital da imagem, segundo ele, nasceu da pesquisa para aprimoramento da transmissão via satélite. As vinhetas de abertura das novelas e as vinhetas de cunho promocionais da TV Globo têm sido, atualmente, elaboradas com técnica mista de design: em videoteipe e imagens sintéticas.

As vinhetas, inseridas na categoria dos signos imagéticos, possuem muitas qualidades e peculiaridades comunicativas e, da complexa variedade de signos que formam o espaço televisivo, as imagens são um universo muito amplo de possibilidades de comunicação, podendo revelar inúmeras mensagens. Nas palavras de Dimbleby e Burton (1985: 193) “as imagens são especialmente poderosas, oferecendo mensagens sobre crenças, porque elas são o canal dominante da comunicação na mídia”.

As vinhetas de abertura são criadas por uma combinação artística de desenhos de traços livres, de formas geométricas, com técnicas de cores e de luz manipulada em movimento por processos informatizados: localiza-se no plano da aparência e da ilusão. São geradas com os recursos da técnica, originada do imaginário, materializada no papel e, posteriormente, digitalizadas.

Segundo Aznar (1997: 62) “a vinheta adaptada para o vídeo é uma experiência visual contemporânea, produzida artificialmente; sua imagem é sintética, eletrônica e sincrônica, oriunda das novas tecnologias que com seu estilo próprio,  constitui-se uma forma de arte da televisão comercial”.

A criação de vinhetas pelo processo videográfico é uma tendência da arte contemporânea em que se justapõem dois tipos de representações: são imagens semi-abstratas, ou seja, usando duas codificações, representam a realidade figurativa e não-figurativa; ou ainda, iconográficas e simbólicas justapondo-se à dupla codificação. Além dessas misturas de técnicas tradicionais e modernas advindas das artes, as vinhetas estão em movimento ou congeladas para pequenos contrastes ou intencionalidades como, por exemplo, as vinhetas institucionais, cujo objetivo é fixar a marca da emissora na memória do telespectador e que podem ser relacionadas a outro conceito de imagem, a imagem de marca, que é a representação mental nascida dos atributos da marca. A imagem em movimento também é proporcionada pela computação gráfica.

Uma vinheta assume diversas características simultaneamente, ou seja, resultado de uma composição gráfica com uso de diversos elementos de linguagens e com certa intencionalidade. As imagens que compõem algumas vinhetas de função promocional da TV Globo mostram paisagens vegetais e paisagens urbanas que retratam monumentos simbólicos, como a vista do globo terrestre, cidades e pontos turísticos. São imagens panorâmicas aéreas vistas através do efeito transparência da marca da TV Globo. As vinhetas do tipo cartoons eletrônicos narram pequenas estórias com modelos simbólicos diversos da cultura nacional. Além do mais, está relacionada diretamente à marca da TV Globo decorada pela imagem e pelo som da vinheta, símbolo da emissora.

Entretanto, as vinhetas de abertura das telenovelas apresentam um complexo simbólico bem mais variado. Em geral, trazem, em sua narrativa, mensagens que se relacionam com a temática ou com a idéia da telenovela e normalmente são ricas em simbologias. Muitas vezes, as mensagens são explícitas, mas também podem aparecer em forma alegórica. Como diz Epstein (2000:68) um “símbolo nunca é completamente esclarecido explicitamente, isto é, sempre há um resíduo implícito”. Segundo ele, deve haver alguma forma de semelhança em todo símbolo ou toda relação simbólica. “Os símbolos são sistemas de representação fracos, porém jamais nulos, pois eles refletem sempre um objeto simbolizado”.

O som das vinhetas de abertura das telenovelas

A música certamente atua no inconsciente do público; o que caracteriza o investimento na criatividade estética das vinhetas de abertura é agradar. Ao agradar, ela faz o efeito e cumpre os seus objetivos. Ferraretto (2000: 286) afirma que “[...] a música e os efeitos exploram a sugestão, criando imagens na mente”. A música desempenha um papel relativo à estimulação emocional, daí sua importância na composição das vinhetas. Ela, articulada com a imagem, seguindo certos princípios, pode, segundo Samuel (1964: 605), “[...] representar um elemento unificador, pode acentuar um efeito, sugerir um movimento e criar uma atmosfera [...]”. A música-tema é mais característica das vinhetas de abertura das telenovelas. Nas vinhetas de abertura percebe-se a identificação, o sentido e a afinidade entre imagem e som. Assim a TV Globo utiliza vinhetas capazes de fazer o público identificá-las, não só pelo visual, mas também pela audição.

Para Koellreutter (1987) a música é um meio de comunicação, um veículo para a transmissão e a difusão de idéias e de pensamentos, daquilo que foi pesquisado e descoberto ou inventado em nossa época; um meio de comunicação e de difusão que faz uso de um sistema de sinais sonoros.

A TV Globo cria em suas vinhetas de abertura um discurso sonoro que, pela repetição, normalmente de oito meses, período de veiculação da novela, é facilmente identificável. A música na modernidade, devido ao seu poder em relação às emoções e a sua ação dentro de seus limites sensoriais, é empregada para os mais diversos fins. É devido a sua capacidade de operar nos limites do inconsciente que ela serve aos fins pragmáticos da propaganda. Ao colaborar para formar uma imagem mental no receptor, a música estabeleceuse na modernidade como um elemento indispensável na construção das peças de comunicação de sentido persuasivo. Nas vinhetas de abertura das telenovelas da TV Globo a escolha da música é tão importante quanto o design, e o sincronismo deste dois elementos é sempre fator de investigação no processo criativo.

Para exemplificar, relembramos músicas-tema que consagraram vinhetas de abertura como a inesquecível “Tieta”, eternizada na voz de Luiz Caldas; “Blue Moon” versão da banda “The Marcels”, do “Beijo do Vampiro”. Composição de Rita Lee e Roberto de Carvalho gravada pelo grupo metrô para “Tititi”. O cantor Ednardo torna-se nacionalmente conhecido com a canção “Pavão Misterioso” em “Saramandaia”. Ao recordarmos o trecho da música “Abra suas asas/ solte suas feras/ caia na gandaia/ entre nessa festa” é impossível não associar e relembrar as imagens da vinheta de abertura de “Dancin’ Days”, composto por Nelson Motta e gravado pelas “Frenéticas”, o sucesso foi tanto que se tornou hino nas discotecas da década de 70.

A vinheta de abertura de “Pai Herói” comoveu o Brasil com a emoção de “Pai” grande sucesso na voz de Fábio Jr.; “Brasil” de Cazuza interpretado por Gal Costa, em “Vale Tudo” consagrou este jovem artista como um grande compositor; “Me chama que eu vou” cantada por Sidney Magal, virou hit e projetou a lambada no país em “Rainha da Sucata”; “Querida” de Tom Jobim em “O Dono do Mundo”; “Fera Ferida” de Roberto Carlos interpretada por Maria Bethânia; o ritmo ‘merengue’ na voz de Elba Ramalho em “Tropicaliente”; “Tormento d’amore” composta por Marcelo Barbosa e interpretada por Agnaldo Rayol em “Terra Nostra”; e “Alô, Alô Brasil” na voz de Eduardo Dusek na vinheta das “Filhas da Mãe” são alguns exemplos de trilhas musicais que associadas às imagens contribuíram para a consagração das vinhetas de abertura, sendo a música determinante para o sucesso das mesmas.

Portanto, as vinhetas de abertura através dos sons, são carregadas de intencionalidade. A partir do momento em que elas se tornam familiares, atribuem-se significados àquilo que se ouve.

O visual contido nas vinhetas da TV Globo

As vinhetas de abertura da TV Globo procuram persuadir as pessoas a gostarem de suas novelas, veiculando não só informações e entretenimento, mas em muitos casos difundindo ideologias. Elas são as embalagens para os programas. Podem ser tomadas como produtos de processos criativos estéticos para serem consumidos como registradores da marca e como produto da indústria cultural, devido ao fenômeno criativo e pelo fato desse material estar intimamente relacionado com o processo de midiatização e de resultados do trinômio cultura, ciência e tecnologia e, ao mesmo tempo, distribuído para o consumo via meios de comunicação de massa em grande escala. Estão a serviço de interesses do sistema ou do veículo de comunicação, que funciona integrado à superestrutura social de poder. Dado o caráter de análise dos elementos subjetivos dos signos, procura -se apontar a ideologia na estrutura do signo. Como diz Bakhtin (1997: 31):

Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signo não existe ideologia.

O autor ainda afirma que “[...] toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico particular já é um produto ideológico [...]”. Para ele, o signo está sujeito a julgamentos de valores, portanto, é ideológico. Nas suas palavras:

Todo signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica (isto é: se for verdadeiro, falso correto, justificado, bom, etc.). O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico. Tudo que é ideológico possui um valor semiótico.

Para Cohn (1978: 340) a “ideologia é um nível de significação, que pode estar presente em qualquer tipo de mensagem e qualquer material de comunicação social é suscetível de uma leitura ideológica”. Essa leitura, por sua vez, “consiste em descobrir a organização implícita ou não-manifesta das mensagens. Vale dizer: a ideologia não se encontra no nível do discurso explícito, mas naquele das regras que o organizam, no seu código”.

As vinhetas de abertura revelam-se ideológicas à medida que se estruturam por códigos, como a combinação de cores, ritmos, conteúdos das mensagens, elementos que se ligam ao entretenimento, ao apelo consumista e à afirmação do pensamento dominante. As vinhetas são elaboradas com intencionalidades subjetivas, como diz Donner (1997:59), “são peças para serem consumidas. Na tevê, mexemos com a emoção do espectador, e temos uma liberdade incrível para produzir esses efeitos”. Para Aznar (1997: 44) as TVs elaboram estratégias visuais como parte do sucesso. A vinheta é dirigida para todas as classes sociais com a função de prender a atenção e vender os produtos da mídia. “É consumida como fantasia eletrônica [...]”. Pela forma como Aznar explica as vinhetas, conclui-se que elas são símbolos. Estando a marca como parte da composição das vinhetas ou sendo ela mesma vinheta em alguns casos, também se supõe que a marca seja símbolo.

A marca, para Azevedo (1988: 41), também é um símbolo. Uma marca é concebida como um símbolo porque transmite informações às pessoas através de uma composição gráfica geométrica, um desenho abstrato, uma palavra desenhada, uma cor padronizada, sempre com caráter visual próprio. A forma como esse material é disposto nos papéis da empresa, como envelopes, cartões de visita e na publicidade, fazem parte do jogo simbólico.

Como, para o entendimento de uma forma, é necessário que ela faça parte do repertório de cada pessoa, isto nos leva a deduzir que essa forma nos remete a outra mais abstrata, através da analogia, da metáfora e da alegoria que ela expressa no vídeo, sendo compreendida e decodificada pelo receptor. A forma adotada para comunicar o conteúdo de uma vinheta são viagens ao imaginário do telespectador, pois essas viagens estão ligadas à ação e emoção que elas despertam no telespectador (Aznar, 1997: 133).

A vinheta na mídia eletrônica geralmente impõe uma marca de identidade, um tipo de apelo visual e sonoro. Na TV Globo, ela é amplamente utilizada na teledramaturgia com fins promocionais. A vinheta de abertura é a propaganda institucional da telenovela em forma de espetáculo de imagens e de sons, um show à parte, sendo alvo de crítica como produto. Além desses aspectos “mágicos”, ela abraça a sua marca aparecendo, cada vez mais. Na TV Globo, a vinheta de abertura é colocada em uma jogada de entretenimento para cativar o grande público.

Vinhetas de abertura das telenovelas da TV Globo

As vinhetas de abertura das telenovelas da TV Globo constituem um material qualitativa e quantitativamente amplo. Como o objetivo deste artigo é analisar a vinheta de abertura, vale ressaltar uma série de projetos entendidos como significativos e suficientes para reforçar a argumentação até aqui descrita. 

Champanhe (1983)

Produzida com técnica news mate. Era o que havia de mais avançado em chromakey nos anos 80, recurso que permite que a imagem captada por uma câmera possa ser inserida sobre outra, criando-se a impressão de primeiro plano e fundo. A vinheta de abertura apresenta copos brindando no ar, enquanto sapatos, batons, meias de seda e um casal flutuam sobre um fundo verde dégradé.

Tititi (1985)

Para representar o mundo da moda e da alta costura, tema central da novela, são criadas soluções artesanais para a vinheta de abertura. Tesoura s, lapiseiras, e fitas métricas gigantes, feitas de borracha e metal, ganham vida independente. As fitas enrolam-se e rodam sobre o papel, as lapiseiras desenham modelos de vestidos femininos e as tesouras cortam sedas e cetins. Tudo é comandado por manipuladores que usam ímãs, conduítes de metal e arames. O resultado é uma abertura dinâmica e divertida, ao som da música “Ti-ti-ti”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho com gravação do grupo Metrô.

Roque Santeiro (1986)

Foi uma das mais célebres vinhetas de abertura da TV Globo. Bóias-frias, carros e tratores andam livremente sobre folhas, milhos, frutas, e rochas gigantes. Para isso utilizou-se o recurso chromakey (processo eletrônico pelo qual a imagem captada por uma câmera pode ser inserida sobre outra imagem, como se fossem respectivamente primeiro plano e fundo). Em algumas cenas foram miniaturas de carros, Kombi e caminhões, formando um engarrafamento gravado sobre uma vitória-régia de verdade. A vinheta mostrava também uma motocicleta andando em alta velocidade sobre um coco e um carro de boi trafegando sobre uma espiga de milho.

Vale-Tudo (1988)

A novela teve uma vinheta de abertura contundente: a música ”Brasil”, composição de Cazuza, interpretada por Gal Costa, foi sincronizada por uma composição de mosaico com imagens que procuravam compor um retrato do país. Ao final, as imagens formavam a bandeira brasileira.

Que rei sou eu? (1989)

Mostra diversos conflitos ocorridos na história mundial, sugerindo uma espécie de máquina do tempo através de oito seqüências cômicas. Depois de uma luta com vikings, soldados apoleônicos em situações divertidas e uma marcha rumo ao fuzilamento, a vinheta chega ao nosso século, mostrando um soldado cavalgando um obus durante a Segunda Guerra Mundial. O efeito é obtido usando-se espoletas e uma alavanca que levantava terra no momento da explosão. A vinheta também indica os mistérios do futuro, lançando mão de um figurino característico e de uma nave espacial. Para encerrar a abertura, a guilhotina cai e a coroa voa descortinando o logotipo.

Top Model (1990)

Inspirada na obra de Hecher, foi idealizado um espaço imaginário, ao mesmo tempo fantástico e realista, em que diversos planos pudessem ser vistos numa só imagem. Modelos – todas com mais de 1,80m de altura, para contrastar com o fundo – desfilam por passarelas espelhadas que se cruzam, descem e sobem. Elas usam roupas e maquiagens de cores quentes e vibrantes, lenços e tecidos de materiais leves. Para permitir a fusão das modelos com o fundo imaginário, é utilizado o recurso de newsmate, que possibilita a colocação de uma imagem recortada sobre outra .

Rainha da Sucata (1990)

Foi criada uma boneca de sucata, confeccionada com um ventilador, um ferro e uma tábua de passar roupa, baldes e molas. Interagindo com bailarinos reais, ela dança a música-tema “Me chama que eu vou”, uma lambada cantada por Sidney Magal, tornando-se mania nacional.

Salomé(1991)

Inspirada no quadro O Beijo (1907), do pintor Austríaco Gustav Klint, a vinheta de abertura exibe um casal em suaves movimentos. Enquanto se abraçam, dezenas de imagens de mosaicos de art déco são projetadas sobre seus corpos, manchando suas roupas de flores, círculos e outras formas geométricas. O fundo é composto por variações de cores e padrões.

O Dono do Mundo (1992)

Tendo ao fundo a canção “Querida”, de Tom Jobim, mostra, modificada eletronicamente, a cena do filme “O Grande Ditador” em que Hynkel – numa sátira a Adolf Hitler, com interpretação de Charles Chaplin – dança com uma bola que representa a Terra.

Pedra sobre Pedra (1992)

Numa visita pelas belas paisagens brasileiras, esta vinheta de abertura apresenta a mistura dos aspectos naturais de tais paisagens com figuras e contornos femininos. Através da computação gráfica, foi transformado o corpo da modelo Mônica Fraga em rochas e montanhas. As gravações da vinheta de abertura foram feitas em Lençóis, na Chapada Diamantina, onde havia formas naturais que favoreciam a montagem desejada. Depois, em computador, as pernas de Mônica se tornavam as margens de um rio, e seu rosto e colo ganhavam o contorno da chapada, coberta pela vegetação.

Perigosas Peruas (1992)

Foi produzida com uma animação de 70 segundos e obrigou o cartunista Miguel Paiva a fazer mais de 400 ilustrações de uma perua, a ave, rebolando e maquiando-se. A música-tema “Perigosas Peruas” interpretada pelas Frenéticas repete mais um grande sucesso do grupo em aberturas de novela. Vale registrar o hit “Dancin’Days” criado por Nelson Motta que contagiou as discotecas dos anos 70.

Deus nos Acuda (1992)

É uma sátira e ao mesmo tempo uma denúncia da corrupção no Brasil. Os designers criam uma grande festa da elite, com todos os símbolos habituais de luxo e riqueza: lustres de cristal, caviar, champanhe e belos vestidos. De repente, um mar de lama – feita com uma mistura de papel, anilina e álcool – invade o salão sem que as pessoas percebam. Um homem acaricia uma mulher, outras conversam animadamente, todas agem com naturalidade enquanto bebem e comem. A lama continua a subir atingindo o rosto das pessoas e as bandejas dos garçons. A câmera desloca-se para cima, enquanto se forma um rodamoinho por onde escorrem a lama, aviões, iates e lanchas. Ao abrir a cena, com recurso da computação gráfica, é revelado o mapa do Brasil sem fundo, como se estivesse escoado pelo ralo.

Fera Ferida (1993)

Apresenta uma onça, representada na tela por uma câmera virtual e por uma sombra, que percorre diversos espaços, passando por campos, grutas, cavernas e chapadas. Durante a viagem, a câmera faz movimentos de subida e descida, como se o olho do telespectador fosse o da fera. Os créditos passam voando, como se levados pela velocidade do animal. Todos os movimentos são sincronizados com o tema musical “Fera Ferida” de Roberto Carlos, interpretado por Maria Bethânia. Ao final da abertura, os olhos brilhantes e os longos dentes da onça aparecem sobre o logotipo da novela.

Tropicaliente (1994)

Frutas tropicais se movimentam na tela ao ritmo de um merengue cantado por Elba Ramalho. Uma salada verde se transforma em ilha selvagem coberta por pássaros migrantes. Enquanto isso, um balé de goiabas, abacaxis, laranjas e kiwis, formado pelas saias das bailarinas fazem evoluções sob iluminação alaranjada. Ao fim, cai a noite, e um casal de bailarinos desliza, numa coreografia vibrante, sob uma enorme lua cheia. Ao se abrir à imagem um grande prato de lagosta à beira -mar serve de palco para tais bailarinos.

A Indomada (1997)

Mostra a atriz Maria Fernanda Cândido de ve stido vermelho e cabelos soltos, correndo por terra árida. Utilizando recursos de computação gráfica, seu corpo transmutava-se em fogo, água e pedra para vencer barreiras metálicas e labirintos de ferro que surgiam no caminho. Por onde a modelo/atriz passa, vai brotando um grande canavial e floresce belas paisagens. O corpo de Maria Fernanda Cândido se transforma em chuva de pedras e em chamas de fogo o suficiente para ultrapassar os obstáculos e chegar ao fim da abertura descortinando o logotipo da novela.

Anjo Mau (1997)

Inicia em monocromia com tom azulado e à medida que uma noiva se maquia, com produtos da empresa de cosméticos Avon, as imagens tornam-se coloridas. Neste projeto percebemos a presença da propaganda nas vinhetas de abertura. O merchandising fez tanto sucesso que a Central de Atendimento da TV Globo recebeu ligações de telespectadoras indagando sobre os produtos utilizados nas imagens.

As Filhas da Mãe (2001)

A composição é desenvolvida com marionetes manipuladas pela companhia O Navegante – Teatro de Marionete. Um palco de 2m de comprimento e 1,5m de altura é construído especialmente para as gravações, que contam ainda com cinco painéis de fundo que representam o Brasil.

O Beijo do Vampiro (2002)

Destaque nos principais jornais do país como uma das melhores vinhetas de abertura da TV Globo da atualidade, foi o primeiro projeto criado em desenho animado com técnica de animação full animation. A narrativa inicia num castelo em noite de lua cheia e alguns personagens da trama passam por diversas situações, sempre fugindo de um monstro que durante a perseguição surge, ora como vampiro, ora como morcego, ao som da música-tema “Blue Moom” interpretada pela banda The Marcels.

Conclusão


As vinhetas de abertura da TV Globo constituem, em suma, formas de expressão com poder de comunicação significativa, subdivididas em formas distintas, ocupando funções específicas. Tais projetos transmitem mensagens, mesmo sendo de curta metragem, normalmente sessenta segundos, devido à sua própria linguagem e à forma como os criadores amarram essas peças ao próprio sistema que as veicula. Tal prerrogativa decorre do poder de seus signos audiovisuais enquanto elementos de representação simbólica. Seus principais elementos constitutivos, a imagem e o som são formas desenvolvidas graças ao fato de o homem percebê-los como entidades culturais comunicativas.

A imagem, em todas as suas formas, estática ou em movimento, produzida por habilidades humanas, pela técnica e pelo design, tais como o desenho, a pintura, a fotografia, a câmara, a arte e o computador, aliada à possibilidade técnica da reprodução em série, representa, historicamente, um dos instrumentos mais poderosos e responsáveis pela formação do imaginário das sociedades modernas. A vinheta produzida pelo processo do design e das técnicas associadas impõe-se na contemporaneidade como forma de expressão estética, capaz de desempenhar papéis relacionados à comunicação. Na TV Globo, ela aparece, revestida de funcionalidades e de intencionalidades resultantes da síntese de procedimentos e de processos sincréticos culturais.

Desse modo, ela é o resultado da mistura de elementos que contêm significados próprios e da manipulação dos significados de repertórios pertencentes ao imaginário, à cultura e aos símbolos.

Assim, as vinhetas de abertura das telenovelas da TV Globo, além de ter objetivos estruturais edecorativos, trazem em seu repertório, discursos, cujas intenções, na maioria das vezes, não se percebem. E fica registrada ao analisar tais vinhetas, a certeza quanto ao considerável número de informações exposto no universo televisivo, cujo objetivo é fixar mensagens no imaginário por força do veículo, destinada a revelar à sociedade o que se passa e o que se pratica no mundo, segundo as suas próprias concepções ideológicas, nas artes, cultura, política e sociedade.

Referências

ADORNO, T. W. O fetichismo na música e a regressão da audição. In: AZEVEDO, W. O que é design? São Paulo: Brasiliense, 1988.
AZNAR, S. C. Vinheta: do pergaminho ao vídeo. São Paulo: Arte e Ciência; Marília: Unimar, 1997.
BARTHES, Roland. Elementos da Semiologia, São Paulo: Cultrix, 1971.
BERGER, John. Modos de Ver. Rio de Janeiro: Rocco, 1999;
BETTETINI, G. Semiótica, computação gráfica e textualidade. In: PARENTE, A. (Org.). Imagem máquina: a era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
DIMBLEBY, R. e BURTON, G. Mais do que palavras. São Paulo: Summus, 1985.
Design, Arte e Tecnologia: espaço de trocas | SP | Universidade Anhembi Morumbi, PUC-Rio & Rosari | 2006. 18 

Informaçoes sobre o autor

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Rogério Abreu - DORNELES Rogério Abreu

Designer, diretor de arte e gestor em design.
Graduado em Design pela UFSM-RS. Mestre em design pela PUC -Rio de Janeiro-RJ, Especialização em Art direction no The art Institute of Vancouver and Pacific Language Institute - Canadá.
Designer - Diretor de arte TV Globo Videographics-Central Globo de Comunicação.
Pós Imagem Design.
Ziraldo Produções.
Ogilvy Rio.
Professor nas áreas de criação e gestão nos cursos de Design e Publicidade Propaganda-ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing)

Site: rogerioabreu@carbonmade.com

Fonte: Article Marketing Brasil

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