A Imagem E O Som Das Aberturas Da TV Globo
A Imagem E O Som Das Aberturas Da TV Globo E A Relação Espaço-Tempo Na Contemporaneidade
Percebemos a relação espaço-tempo uma constante mutação com o passar do tempo.
Hoje em dia a computação gráfica e as imagens geradas pelos recursos tecnológicos já chegaram nos mais diferentes lugares, colaborando com a rapidez informacional e a vivência simultânea nas mais diferentes culturas e sociedades, reduzindo as longas distâncias.
A notoriedade que as imagens geradas pela computação gráfica vêm recebendo pela crítica é reveladora acerca da questão tecnológica e abre espaço para a discussão relacionada às conseqüências da precária administração das novas tecnologias sobre a sociedade.
A primeira grande crise do capitalismo, resultado da super acumulação de bens de consumo[1] no final da década de 1840, desencadeou uma crise de representação, proveniente de um reajuste radical do sentido de tempo e espaço na vida econômica, política e cultural[2].
Assim como a literatura, a arte também podia evitar questões como o internacionalismo, a sincronia, a temporalidade insegura e a tensão entre o sistema financeiro e sua base monetária[3]. A arte de Manet, Monet, e os romances de Flaubert, passou a proporcionar “sinais de uma radical ruptura do sentimento cultural que refletia um intenso questionamento do sentido do espaço e do lugar, do presente, do passado e do futuro, num mundo de insegurança e de horizontes espaciais em rápida expansão”[4].
Entretanto, fatores como a expansão das estradas de ferro, o aparecimento do telégrafo, o desenvolvimento da navegação a vapor, os primórdios da comunicação pelo rádio e a possibilidade das viagens de automóvel também contribuíram para mudar radicalmente o sentido do espaço e do tempo.
A viagem em balões e a fotografia aérea alteraram as percepções da superfície da Terra, ao mesmo tempo em que novas tecnologias de impressão e reprodução mecânica permitiram a disseminação de dados, informação e cultura em classes cada vez mais vastas da população[5]. Tais inventos, sua utilização e desenvolvimento constituíram novos estilo de discorrer acerca do tempo e o espaço e da convivência, diminuindo as distâncias e motivando a aceleração do tempo.
Os artistas foram do mesmo modo entusiasmados pela tecnologia. Assim, além do conteúdo da mensagem e sua composição, observamos que o engenho tecnológico propriamente dito, sofre como causador de resultado no receptor. Avaliando a procura contemporânea pela novidade, uma técnica atual é valorizada por si só na representação, de seu emprego num artefato gráfico, uma melhoria[6].
Elevar o passado cresce a medida em que a tecnologia seriada de reprodução em massa se desenvolve. Se na Antigüidade a cópia era avaliada como forma singular de difusão do conhecimento, a partir da produção em massa de simulacros tal sentido submergiu e a repetição seriada passou a perder seu valor.
Entretanto, acerca das modificações ocorridas no método de transmissão do conhecimento, certamente apreendemos diversas coincidências no que diz respeito ao trabalho liberal da contemporaneidade e o do passado.
Na produção artesanal, a concepção e a realização estão ligadas e coordenadas pelo coletivo. O fato de que o processo pode ser feito por um único indivíduo oculta sua complexibilidade, oferecendo uma grandeza humana e aparente naturalidade permitindo a experimentação do artesão e receptor como uma unidade inteligível.
Acerca da transformação nas condições da produção industrial, pesquisas em design apontam certa constância da unidade localizada na memória artesanal, mostrando a prática do design como uma relação independente entre designer e produto[7].
O sentido mutante do espaço e do tempo, maquinado pelo próprio capitalismo, inventou a necessidade de eternas reavaliações das representações do mundo na vida cultural, influenciando diretamente o surgimento do modernismo.
O nascimento de tecnologias, como a computação gráfica e máquinas revolucionárias, resultou em um novo conjunto e compressão de experiências do espaço e do tempo, possibilitando considerar o pós-modernismo como uma espécie de resposta a esta nova realidade[8].
Em conseqüência, a pós-modernidade trouxe a acentuação da volatilidade e efemeridade dos produtos. O comando da racionalidade instrumental afastou a fronteira imposta pela moral, pela religião ou por regras tradicionais das corporações a fim de privilegiar unicamente o princípio da produção lucrativa.
As imagens se tornaram mercadorias e o capitalismo passou a focar predominantemente a produção de signos, imagens e sistemas de signos, e não as próprias mercadorias. A efemeridade e a comunicabilidade instantânea no espaço tornaram-se virtudes a ser exploradas e apropriadas pelos capitalistas para seus próprios fins.
A competição no mercado da construção de imagens passa a ser um aspecto vital da concorrência entre as empresas[9].
Essa realidade fica evidente na propaganda e do design. No universo do design criado para a televisão, onde as aberturas de programas veiculadas na TV Globo são fundamentais, fica ainda mais evidente o uso da imagem com objetivos persuasivos e mercadológicos, transmitindo uma composição imagética de associação direta com o telespectador, onde envolve, cultura, natureza, arte, cotidiano e magia.
A TV Globo, no final dos anos 70 com a criação do videographics (departamento de design da CGCOM - Central Globo de Comunicação), foi pioneira na implantação do design criado para a TV, e com o desenvolvimento da computação gráfica, consegue detectar e implantar os novos estilos da contemporaneidade.
Um desses traços é a intensa exploração da imagem e sua relação com a música, seguindo uma tendência das grandes emissoras mundiais: a de oferecer magia tecnológica das mais diversas formas, como mulheres se transformam em rochas, plantas, dançarinas que voam, pessoas inseridas em ambientes virtuais e desenhos animados.
O homem contemporâneo utiliza a computação gráfica para experimentar o improvável, o impossível, uma espécie de superação de limites. Associando sensações.
Sinestesia (do grego "união" ou "junção" (esthesia) "sensação") é a relação de planos sensoriais diferentes: por exemplo, o gosto como o cheiro, ou a visão como o olfato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica. (wikipédia).
O estímulo dos sentidos provoca uma percepção automática em outro sentido. Na sinestesia da audição, por exemplo, a percepção de um som pode provocar uma experiência visual.
A música certamente atua no inconsciente do público; o que caracteriza o investimento na criatividade estética das aberturas na televisão é agradar. Ao agradar, ela faz o efeito e cumpre os seus objetivos. Ferraretto[10] afirma que a música e os efeitos exploram a sugestão, criando imagens na mente.
A música desempenha um papel relativo a estimulação emocional, daí sua importância na composição das vinhetas. Ela, articula com a imagem, seguindo certos princípios, pode representar um elemento unificador, pode acentuar um efeito, sugerir um movimento e criar uma atmosfera.
A música-tema é mais característica das aberturas de telenovelas. Percebemos a identificação, o sentido e a afinidade entre imagem e som. Assim a TV Globo utiliza aberturas capazes de fazer o público identificá-las, não só pelo visual, mas também pela audição.
Koellreutter[11] afirma que a música é um meio de comunicação, um veículo para a transmissão e difusão de idéias e de pensamentos, daquilo que foi pesquisado e descoberto ou inventado em nossa época; um meio de comunicação e de difusão que faz uso de um sistema de sinais sonoros.
A TV Globo cria em suas aberturas um discurso sonoro que, pela repetição, normalmente de oito meses, período de veiculação da novela, é facilmente identificável. A música na contemporaneidade, acerca de seu poder em relação as emoções e a sua ação dentro de seus limites sensoriais, é empregada para os mais diversos fins.
Ao colaborar para formar uma imagem mental no receptor, a música estabeleceu-se como um elemento indispensável na construção das peças de comunicação de sentido persuasivo. Nas aberturas das telenovelas da TV Globo a escolha da música é tão importante quanto o design, e o sincronismo destes dois elementos é sempre fator de investigação no processo criativo.
Para exemplificar, relembramos músicas-tema que consagraram aberturas como a inesquecível Tieta, música com o mesmo título eternizada na voz de Luiz Caldas; "Blue Moon" versão da banda The Marcells para O Beijo do Vampiro. Composição de Rita Lee e Roberto de Carvalho gravada pelo grupo Metrô para Tititi.
O cantor Ednardo, na década de 70, torna-se nacionalmente conhecido com a canção "Pavão Misterioso" em Saramandaia. Ao recordarmos o trecho da música "Abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nesta festa..." é impossível não associar e relembrar as imagens e mais especificamente as meias de cores vibrantes das bailarinas em close, da abertura de Dancin'Days, composto por Nelson Motta e gravado pelas Frenéticas, o sucesso foi tanto que se tornou hino nas discotecas de 70 e lembrada até hoje.
A abertura de Pai Herói comoveu o Brasil com a emoção de "Pai" sucesso na voz de Fábio Jr. "Brasil" de Cazuza interpretado por Gal Costa em Vale Tudo, consagrou este jovem artista como um grande poeta e compositor. "Me chama que eu vou" cantada por Sidney Magal para a Rainha da Sucata, virou hit e projetou o ritmo da lambada no Brasil e exterior. "Querida" de Tom Jobim em O Dono do Mundo forma uma perfeita harmonia na integração imagem e som.
E "Tormento d'amore", composta por Marcelo Barbosa e interpretada por Agnaldo Rayol em Terra Nostra, sintetiza a emoção de uma super produção que aborda a imigração italiana no Brasil.
Estes são alguns exemplos de trilhas musicais, que associadas às imagens, contribuíram para a consagração de aberturas da TV Globo, tornando a música determinante para o sucesso das mesmas.
Assim, as aberturas são, através da imagem e som, carregadas de intencionalidade. A partir do momento em que elas se tornam familiares, atribuem-se significado àquilo que se ouve.
Embora possuam uma grande experimentação artística (uma vez que existe muita liberdade quanto às imagens, som, fontes ou técnicas utilizadas), as aberturas da TV Globo também expressam claras motivações comerciais, estando comprometidas com a indústria cultural, persuasiva e a autopromoção da emissora.
Assim, as aberturas da teledramaturgia da TV Globo estão diretamente relacionadas com a decorrência da compressão do espaço e do tempo na contemporaneidade, com a valorização da imagem e som em detrimento da mercadoria, elevando o significante em relação ao significado.
Bibliografia:
ADORNO,Teodor. Teoria Estética. Lisboa: Edições 70. 1988
BUCCINI, Marcos . De Bass à Imaginary - Tipografia em Créditos de Filmes. In: 4º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design, 2000, Novo Hamburgo. 4º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design, 2000. v. 1. p. 0079-0084.
CIPINIUK, A. . O novo no design: transgressão ou impertinência?. In: V Simpósio do LaRS - Illicite Errore: transgressão ou impertinência?. Rio de Janeiro : Departamento de Artes e Design da PUC-Rio, 2006.
COELHO, Teixeira. Moderno pós moderno: modos & versões. 3.ed. rev. e ampl. - São Paulo: Iluminuras, 1995.
COSTA, Carla C. da . Vinhetas de televisão: do estático ao pós-moderno. . In: P&D - 7º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design, 2006, Curitiba.
GRUSZYNSKI, A. C. Design gráfico: entre o invisível e o ilegível. In: 10º Encontro da Associação Nacional de Programas de Pós-graduação em Comunicação, 2001, Brasília. Anais do 10º. Compós. Brasília: UnB, 2001.
HARVEY, David. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. 13ª.ed. São Paulo : Loyola, 2004.
HESKETT, John. Desenho industrial. Brasília: UnB, Rio de Janeiro: José Olympio, 1998.
MACHADO, Arlindo (1993).Máquina e Imaginário: O desafio das poéticas tecnológicas.São Paulo: EDUSP.
Notas:
1 Nesse período, a produção foi muito superior ao consumo, causando estagnação da economia.
2 HARVEY, 2004. p.237
3 HARVEY, 2004. p. 239
4 HARVEY, 2004. p. 239
5 HARVEY, 2004. p. 240
6 GRUSZYNSKI, p.152
7 HESKETT, 1998. p. 7
8 HARVEY, 2004. p. 256
9 HARVEY, 2004. p. 260
10 FERRARETTO, 2000 p. 286
11 KOELLREUTTER, 1987 p. 65
|
Rogério Abreu - DORNELES Rogério Abreu Designer, diretor de arte e gestor em design.
|
Fonte: Article Marketing Brasil
abreurogerio
rogérioabreu
televisao
tvglobo
história+design
design
Este artigo é concedido com Licença
Creative Commons. E' permitida a sua republicação integral,
sem modificaçoes, inclusos os links e as informaçoes sobre
o autor e fonte quando presentes